
Sobre limões e limonadas
31/12/2021Faz sim! Quer ver só?
Você faz alguns rabiscos em uma folha de papel ou – com muito mais frequência hoje em dia – toca reproduções desses rabiscos em um teclado ou em uma tela. Ao fazer isso, você forma uma combinação única desses rabiscos. Aí outro alguém olha para aqueles rabiscos e interpreta o que eles querem dizer, e isso causa algum tipo de impacto no mundo. A escrita é ou não é pura magia?
O ato de escrever pode nos parecer algo muito natural e simples (afinal, já existia há milênios quando nascemos), mas na realidade ele é um grande feito da espécie humana. Uma conquista civilizatória que devemos sempre valorizar, celebrar, respeitar, cultivar e desenvolver.
Só que andamos meio desatentos com o uso dessa “magia”, e a desatenção costuma ser seguida da afirmação de que “se deu para entender, tá bom”. Então pergunto: será que realmente devemos nos contentar com tão pouco? Será que nosso destino inexorável, como indivíduos e como espécie, é acompanhar passivamente o empobrecimento e a mediocrização dos textos cotidianos?
Veja, a escrita sistematizada existe há mais de cinco mil anos. A Pedra de Roseta (talvez o “dicionário” mais antigo do mundo) foi criada em 196 a.C., descoberta no final do século XVIII e traduzida no início do século XIX. Ou seja, definitivamente não nos faltou tempo para aperfeiçoar a maneira como escrevemos.
E assim fizemos. Enquanto elaboro esta coluna, estamos próximos de celebrar o centenário da publicação de “Ulisses”, a obra-prima de James Joyce. Neste ano também comemoramos os 100 anos da Semana de Arte Moderna, em que a literatura teve papel chave. Essas são duas demonstrações cabais, dentre tantas possíveis, da nossa capacidade de usar a escrita como constituinte e símbolo da nossa evolução.
Mas voltemos ao nosso entorno imediato e dediquemos um olhar um pouco mais atento a essa questão. A pergunta chave aqui é: como você faz sua “mágica”? Como você escolhe seus “feitiços”? (Obrigado, Harry Potter rsrsrs.)
Você pensa previamente sobre o que vai escrever? Você escolhe as palavras com cuidado? Você considera quem é o seu leitor? Você se importa com a clareza da sua mensagem? Antes de clicar no ícone de enviar, você relê o que escreve? Enfim, essas são só algumas das muitas perguntas cujas respostas podem configurar um texto que realmente expresse sua identidade e suas ideias.
Pessoalmente, fico muito triste quando vejo tanto conhecimento e talento desperdiçados em nome das [supostas] características do meio, como as infames abreviações no WhatsApp ou o banimento das letras maiúsculas no Instagram por que “todo mundo faz assim”, por exemplo. Ou pela [eterna] pressa. Ou ainda pela simples preguiça de escrever da melhor forma que se é capaz.
Então fica aqui meu convite: que tal dar mais atenção à sua “magia”? Ao escrever – em qualquer meio, para qualquer leitor, sobre qualquer assunto, em qualquer circunstância –, pense em si e em quem vai ler aquilo. Em si para que seu texto, por mais banal que possa parecer, expresse genuinamente quem você é e o que você quer dizer. E no leitor para que ele tenha a melhor compreensão da sua mensagem, para que não tenha que “fazer força” para entendê-la, e para que sinta um vínculo real com você.
Talvez você até perceba que suas relações podem evoluir por meio dessas conexões, e aí você vai (re)conhecer ainda mais uma dimensão mágica da escrita. Vamos tentar? Novamente recorrendo a uma elemento de Harry Potter, qual será o “patrono” que sua escrita vai conjurar?
PARA SABER MAIS
Origem da escrita
https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/lingua-portuguesa/historia-da-escrita
Pedra de Roseta
Ulisses
https://www.infoescola.com/literatura/ulisses-romance-de-james-joyce
Semana de Arte Moderna de 1922
https://www.todamateria.com.br/semana-de-arte-moderna
Texto, contexto e identidade (vídeo de Rita Von Hunty)
https://www.youtube.com/watch?v=pLoSHiuW0tM
Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (cena da aula sobre o patrono)

